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O HOMEM DE UM MILHÃO DE VIEWS - Por Adão Albuquerque

Em um texto super descontraído o Prof. Adão fala sobre sua experiência no mundo das Redes Sociais.

01/10/2019 - 09:00

 

“Steve Austin, astronauta, um homem semi-morto! Senhores, nós podemos reconstruí-lo. Temos a capacidade técnica para fazer o primeiro homem biônico do mundo e Steve Austin será este homem. Muito melhor do que era: mais forte, mais rápido”.

 

 

 

 

Esse era o texto de abertura da série O Homem de Seis Milhões de Dólares, que estreou há 40 anos, pela rede ABC, nos Estados Unidos. Um ciborg da ficção que custou uma fortuna e que fazia a alegria de seus fãs com impressionantes cenas de ação. Naquela época, eu tinha 10 anos de idade e sonhava em ser também um menino biônico: ser reconhecido pela força, pelas habilidades incomuns, essas coisas típicas de todo adolescente. Cresci e descobri, admirado, que continuamos, no geral, querendo a mesma coisa: sermos vistos, notados, queridos, desejados, distinguidos dos demais, para que isso dê algum sentido à nossa existência. Precisamos ser alguém que se destaca na multidão. De fato ninguém quer ser mais um, ninguém quer ser a parte do todo que não tem um nome próprio. Nessa luta para sermos reconhecidos, estudamos, trabalhamos, malhamos, buscamos agregar valores de toda ordem aos nossos corpos, currículos, biografias e ficamos tão atentos a nós mesmos que pouco enxergamos o outro ao lado. E como este outro ao lado também está na mesma peleja para ser visto, parece que vivemos numa multidão de cegos em que todos brigam por atenção, mas ninguém se enxerga.

 

 

A internet trouxe consigo as redes sociais, e a paranoia egocêntrica de se mostrar melhores para o mundo adquiriu tons de histeria coletiva: curtidas, comentários, compartilhamentos, engajamento… Vivemos expondo nossas vidas ao gosto alheio, implorando um “like” de atenção! E, se nos anos 70, eu queria ser o homem de seis milhões de dólares, hoje muitos querem ser alguém que tenha seis milhões de seguidores, seis milhões de curtidas, seis milhões de visualizações. Mas, o que isso tem feito de nós? Durante os dias do Festival de Inverno Bahia, e nos dias que se seguiram a ele, notei, com assombro e alegria, que as minhas visualizações no Instagram oscilaram numa média de um milhão de vezes por semana, feito inédito para nossa realidade e que me deixou intrigado: por que fui tão visto? Contratado pela produção do festival para fazer uma cobertura do mesmo nas mídias sociais, passei três dias conhecendo, revendo, conversando com as pessoas, contando-lhes minhas histórias, ouvindo as delas, nos fotografando em “selfies”, sorrindo e rindo como se o mundo fosse apenas aquele momento de alegria sem preocupações. E esta é a explicação para tanta visibilidade: eu não fui o mais visto, eu fui o que mais viu! O que mais deu atenção aos outros, o que mais se importou com cada um com quem eu cruzei. E foi tão grande essa interação que as pessoas queriam rever esse momento e curtir, e comentar, e me seguir e, por isso, tanta visibilidade naquele período.

 

 

Nos dias que se seguiram ao FIB ganhei centenas de seguidores, milhares de likes, milhões de views e um reforço naquilo em que eu já acreditava: cada vez que deixamos de ser o centro do mundo, como o Sol em volta de quem todos devem orbitar, nosso universo se amplia. Ver o outro, perceber o outro, sentir-lhe a vibração com sincera atenção é o que ressalta em nós aquilo que temos de mais humano: a empatia. Não somos melhores porque nos percebemos diferentes, somos melhores justamente porque somos iguais! Porque somos todos feitos da mesma matéria fina e maravilhosa que se chama humanidade. Naqueles dias do FIB, muitas pessoas me pediram para tirar fotos com elas. Duas senhoras que faziam a limpeza do espaço pararam admiradas com o assédio sobre minha figura. Quando o tumulto passou e eu as percebi ali, perguntei: posso fazer uma foto com vocês? Elas sorriram admiradas e uma delas com os olhos cheios de lágrimas me disse baixinho: “só o senhor viu a gente aqui”! Foi a foto mais linda de todo o festival! Por um mundo com menos “likes” e mais abraços. Por um mundo com menos “views” e mais visitas. Por um mundo com menos postagens desejando “bom dia” no Whatsapp e com mais ligações dizendo: eu te amo, lembrei de você hoje, vem almoçar comigo? As redes sociais estão fechando nossas janelas que davam para o mundo e as portas que se abriam para nossas calçadas cheias de prosas boas com nossos vizinhos e amigos. Queremos ser vistos, mas devemos mesmo é querer ver mais, estar mais juntos, compartilhar abraços e curtir a presença. Como dizia Roberto Carlos, “eu quero ter um milhão de amigos”, mas os meus, de preferência, eu quero na tela da vida, e não na tela do meu celular.

 

 

 

 

 

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