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O brasileiro que eu quero ser!

Por: Adão Albuquerque

24/11/2018 - 08:00

 

Há exatamente um ano, na vigésima primeira edição da Personnalité, em Setembro de 2017, eu falava sobre o tempo certo de ser feliz. Como essa publicação nunca envelhece, até hoje recebo comentários lisonjeiros sobre o que foi escrito ali naquele texto despretensioso, mas cheio de verdades. Para ilustrar aquelas páginas,  eu me deixei fotografar com o clássico jeans e paletó, mas com um sapato plataforma de salto 15.  Quem me conhece sabe que não faço isso para chamar a atenção, apesar do efeito ser incrível nesse sentido, mas porque faz tempo que eu não distingo se o que uso é deste ou daquele gênero, essa binaridade já não me define. Contudo, naquela época algumas pessoas me criticaram pelo fato daquele sapato da foto trazer a estampa da bandeira dos Estados Unidos da América e me diziam: por que você não usou a bandeira do seu país? Bem, vamos por partes.

Primeiro que as nacionalidades também não me definem desde que eu me entendo como uma parte de algo muito maior e maravilhoso que é a humanidade, e ser brasileiro, ou norte-americano ou chinês ou congolês é só uma questão de território, não de identidade: de fato eu sou do lugar onde eu estiver. É como você se definir como conquistense. Eu sou daqui porque estou aqui, mas fui gerado no interior do Ceará, gestado em Jequié, parido em Ipiaú, criado em Bom Jesus da Serra e registrado como filho de Poções, só depois  vim  amadurecer e florescer neste planalto da Conquista. Assim, tendo essa vida cigana, de onde eu seria? Mas vamos lá, vamos nos definir como brasileiros para que esta “prosa” possa fluir. Respondam-me então: o que nos define como brasileiros?

São tantos estereótipos ao longo de séculos que nos impuseram que muitas vezes nem nós mesmos saberíamos como nos traduzir. País do carnaval, do futebol, da Amazônia, das mulheres bonitas, da alegria, do samba, das riquezas sem fim, mas também o Brasil dos  políticos corruptos, o Brasil mais violento que países em guerra, injusto com seus famintos diante da sua abundância de recursos. O Brasil que mata suas “mulheres bonitas” aos milhares todos os anos. O Brasil intolerante com suas diversidades étnicas, sociais e sexuais. Quem é o povo brasileiro? Quem somos nós? Não são respostas fáceis, eu sei.

Mas vamos voltar ao sapato de salto com estampa norte-americana, motivo dos questionamentos que provocaram este texto. Desde aquela edição, eu venho procurando por um exemplar com as mesmas proporções, mas com uma estampa “brasiliana”. Não que isso faça diferença no que acredito sobre mim, como já disse, mas como um mote para ilustrar o que eu gostaria de dar como resposta a esta pergunta sobre quem somos nós. Para ser mais exato, eu não quero tentar definir quem somos, mas sim o que eu gostaria que fôssemos.

Em junho deste ano, através do Instagram, fui apresentado ao tão procurado “sapato de salto brasileiro”: um amigo de São Paulo me marcou numa publicação do Instagram do estilista de calçados Fernando Pires. Para quem não o conhece, ele é o responsável pelos sapatos de 9 entre 10 famosas do Brasil, já fez coleções para a rainha do pop Madonna e foi o preferido de Hebe Camargo por anos. Enfim, uma celebridade. E não é que ele produziu o sapato que eu procurava? Ocorre, porém, que os sapatos do Fernando não são tão acessíveis do ponto de vista financeiro (nada que um parcelamento não resolva), mas, para piorar, quando fiz uma consulta ao seu site de vendas,  descobri que a numeração daquele modelo ia somente até o numero 37. Senti-me a irmã feia e invejosa da Cinderela tentando colocar meu pé 40 no sapatinho de cristal que pertencia a ela. O sonho acabou. Mas, antes que o relógio soasse as doze badaladas, eu resolvi apelar para a ousadia e escrevi ao Fernando uma mensagem contando por que eu “precisava” daquele sapato.

Claro que eu sabia que ele não iria ler e que sua assessoria no máximo responderia o que eu já sabia – que não dava para produzir um único par com numeração maior. E foi exatamente isso que aconteceu. Apesar de produzidos individualmente, as peças seguem um padrão de mercado e não daria para produzir um único par só para mim. Porém, para minha surpresa, quem me respondeu foi o próprio Fernando Pires! Diante disso não perdi a chance de tietar esse artista, dizer o quanto seu trabalho é maravilhoso e essas coisas deslumbradas que a gente diz quando encontra alguém que admira. Falei da Personnalité, do salto norte-americano, dos protestos dos nacionalistas, enfim, desabafei e fui dormir feliz.

No dia seguinte, contrariando um pouco a história da Cinderela, eu, a irmã feia e invejosa, porém sincera, fui surpreendido com uma mensagem logo no inicio do dia: a equipe do Fernando não poderia produzir o meu sapato, mas ele mesmo faria isso para mim! Sim, ele faria o meu salto 15 com estampa brasileira! Só pra mim! Como não me sentir lisonjeado? E o encantamento foi além. Não sei de onde ele tirou tanta simpatia por mim, mas não só fez um preço incrível pela peça, como me mandou entregá-la mesmo antes que o valor pago por ela estivesse na sua conta. Alguma coisa o fez acreditar que eu não trairia a sua confiança, mesmo estando tão distantes um do outro, no espaço e na intimidade.

Para muitos, isso pode parecer um caso banal, mas esse episódio reforçou em mim a certeza de que é esse o tipo de brasileiro que eu quero ser e sou tanto quanto possível:  o que confia no desconhecido, o  que acredita na honestidade do outro, o que não presume a maldade de quem acaba de conhecer, o que aposta na assertividade, na empatia, na generosidade. O que se ocupa da felicidade alheia, mesmo que isso lhe custe algum sacrifício, só pelo prazer de ver um sorriso de gratidão. Alguém que aposta no bem.  E acaso para ser assim eu preciso pertencer a alguma nação? Eu preciso calçar o sapato estampado com esta ou aquela bandeira? Definitivamente não.

Mas, já que eu finalmente calcei o Brasil, vamos parar e pensar que neste ano nós poderemos mudar os rumos dessa nau à deriva que se tornou o nosso país, escolhendo nas urnas os brasileiros que representam o que nós queremos ser. As urnas precisam nos traduzir. Como afirmou o escritor Mario de Andrade, “minha obra toda badala assim: brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil”.

Assim, que tal nos desafiar agora mesmo a sermos melhores enquanto humanos, fazendo florescer essa humanidade que não precisa de nacionalidade para se identificar ou se expressar? Necessário mesmo é ser humano. Necessário é realizar o Brasil que nós queremos ser.

 

 

 

 

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