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Narciso e o Espelho da Vida: Por Adão Albuquerque

Que nossa maior aventura na vida seja descobrir quem somos para que possamos ser mais para os outros e por isso mesmo, sermos mais para nós mesmos

30/04/2020 - 10:00

 

Muitas vezes, ao me olhar num espelho, eu me lembro do mito de Narciso. Ele que era tão lindo a ponto de encantar homens e mulheres, mas que, por ser muito orgulhoso e arrogante, não se permitia ser amado por ninguém: ele se achava mais do que qualquer um que seria capaz de merecê-lo. Por outro lado, Narciso também nunca se permitiu amar outra pessoa, ele nunca conheceu o amor. Um dia, cansado do mal que ele fazia aos outros, pelo desprezo com que Narciso os tratava, os deuses castigaram-no usando seu próprio veneno: fez com que ele visse seu reflexo na água e, a partir daí, o inevitável aconteceu e ele se apaixonou por si mesmo, ficando nessa mesma posição até definhar e morrer.

Sempre achei esse mito de uma extrema crueldade com seu personagem principal, afinal, que culpa Narciso tinha pela beleza que carregava? E que responsabilidade ele tinha com o encanto que os outros sentiam por ele? Ele tinha obrigação de amar todo mundo que tivesse a fim dele? Que castigo terrível ter que ser sempre o que os outros desejam de nós! Como a mitologia é de domínio público eu vou me dar o direito de reescrever essa história. Até porque eu já fui muitas vezes chamado de narcisista, e sei que sou assim nas muitas vezes que deixo essa incrível autoestima que desenvolvi ao longo da vida se manifestar em toda sua plenitude. Sendo assim, vamos lá.

 

 

Narciso foi um rapaz que nasceu com uma beleza incomum e por isso a todos encantava. Ele não entendia bem por que isso acontecia, mas desde cedo entendeu que isso poderia lhe trazer algum beneficio, afinal, sem nenhum esforço, ele conseguia com que todos fizessem tudo que ele queria. Desse modo, ele cresceu convencido, arrogante e indiferente ao amor, pois não precisava se dedicar a ninguém, já que todos estavam ocupados em fazer isso por ele. Um dia, Narciso se viu num lago e ficou espantado: como ele era realmente belo! Ficou um bom tempo observando sua aparência e tentando entender por que tanta gente se importava com aquilo a ponto de se anular em nome dele. Narciso ficou espantado com isso. Afinal, que povo imbecil seria aquele que o cercava, que mesmo mal tratado por ele, amava-o incondicionalmente?

Como é comum quando a gente se olha de frente e se encara sem fantasias, Narciso começou, a partir dali, um profundo processo de autoconhecimento. Percebeu quais eram suas motivações mais profundas, o que ele pensava sobre a vida e sobre seu futuro naquele mundo frívolo, que se encantava pela superfície das coisas e das pessoas, servindo cegamente aos desmandos do que era efêmero. Narciso ficou triste e preocupado com o que viria, afinal ele sabia que o tempo é inimigo dos padrões de beleza e que seu futuro seria de muita solidão quando já não tivesse o que os outros queriam dele. Assim, ele tomou uma decisão radical: foi-se embora daquele lugar, deixando para trás toda uma vida de facilidades, mas que o tornara um ser humano desprezível para si mesmo.

 

 

A partir daí, Narciso percorrera o mundo e conheceu muitos povos, alguns parecidos com o que ele já conhecia, outros que o encantaram e lhe fizeram muito feliz. O primeiro foi uma aldeia onde absolutamente todas as pessoas tinham a mesma aparência, todos eram belos e por isso mesmo, ninguém se importava com isso. A aparência não era parâmetro para medir a importância de ninguém naquele lugar, e por isso todos viviam em busca das verdadeiras qualidades que causam orgulho em alguém: a bondade, a empatia, a solidariedade. Ali Narciso aprendera a ser uma pessoa melhor, a trabalhar para ter o que precisava, a conquistar o respeito dos demais por aquilo que ele era e não pelo que só aparentava ser.

Continuando suas andanças, Narciso chegou a um outro lugar em que finalmente descobriu o amor! E como foi maravilhoso ser capaz de se esquecer um pouco para se doar tanto quanto possível ao outro. Ali Narciso amou alguns homens e mulheres, pois estes ficaram impressionados com sua personalidade e nunca disseram nada sobre sua aparência, até porque, naquele lugar, todos eram cegos. Narciso se esqueceu de sua beleza, pois ali ninguém sabia dela. E ele foi profundamente feliz, amando e sendo amado, respeitando e sendo respeitado, conhecendo cada dia mais de sua essência, modificando-se, perdoando-se e compreendendo cada vez mais o outro e por consequência, compreendendo-se cada vez mais.

 

 

Um dia Narciso voltou a sua cidade natal, o tempo havia passado e ele estava envelhecido, todo o viço da juventude havia se apagado, nenhum traço da beleza de outrora se via em seu semblante e, desse modo, quase ninguém percebia sua presença. Narciso pode então ficar em paz para poder mostrar ao seu povo aquilo que ele tinha de mais belo: sua essência humana que era generosa, altruísta, sábia e cheia de empatia. Não demorou para que muitos se apaixonassem por tudo isso e passassem a tentar copiar seus modos e Narciso viveu ali seus últimos e felizes dias de vida, cercado de amor e amando, como nunca, seus semelhantes. Conta-se que onde foi sepultado, nasceu um campo de lindas e perfumadas flores a quem todos resolveram chamar de Narciso.

Que nossa maior aventura na vida seja descobrir quem somos para que possamos ser mais para os outros e por isso mesmo, sermos mais para nós mesmos! Caetano já disse um vez que Narciso só acha feio o que não é espelho, hoje eu sei que o Narciso que em mim habita só acha feio aquilo que não me deixa parecer mais belo aos olhos dos corações alheios.

 

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