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#EspecialAdão: A felicidade pertence aos sonhadores

25/06/2019 - 08:00

 

 

 

No Brasil dos anos 70 e até meados dos anos 2000, era muito comum, em quase todos os lares, o hábito de reunir a família, numa determinada hora da noite, para um dos exercícios mais doces da existência humana: sonhar! Hoje, em tempos de modernidade líquida, parece estranho usar numa mesma frase estes dois verbos: reunir e sonhar, afinal, vivemos numa época em que brigamos pelo direito de estarmos sós, individualizados numa busca incessante pela felicidade  material e imediata.

Naquele tempo de família reunida, porém, uma conquista tecnológica era o centro da sala, das atenções e de nossas vidas de sonhadores: a televisão! Objeto de desejo e símbolo de modernidade, a televisão era uma janela aberta para o mundo, especialmente para o mundo da fantasia. Aquilo que o rádio apenas sugerira, a TV mostrava: existiria algo mais fantástico? E junto com a TV vieram as telenovelas! Criação cubana que nasceu no rádio e que floresceu e criou por aqui uma identidade genuinamente brasileira.

 

Assistir a novelas fazia parte da rotina da maioria dos brasileiros até bem pouco tempo e, na minha infância,  ter um televisor era sinônimo de família bem sucedida. Em nossa rua, por exemplo, a despeito de nossos poucos recursos, fomos a primeira casa a possuir, pela magia do crediário, a nossa própria televisão e me lembro de que as janelas da nossa sala, que davam para a rua, ficavam abertas a partir das dezenove horas para que a vizinhança pudesse ver o Jornal Nacional da Rede Globo e outro grande sucesso da época: a novela Irmãos Coragem, uma trama gigante de 328 capítulos. Tudo em preto e branco, mas de um colorido mágico para meus olhos de criança.

 

A partir dali, acompanhamos com devoção muitos outros sucessos: Dancing Days, Vale Tudo, Roque Santeiro, Pantanal, Celebridade, Avenida Brasil e eu, de menino a homem feito, cresci assistindo a novelas. E chorava, e ria,me inspirava, e dançava seus temas musicais, e me apaixonava pelos seus galãs e me via na força de suas heroínas. Mesmo depois de “velho”, sempre que podia, eu corria para chegar em casa, à noite, ainda em tempo de me deitar na cama de meus pais, e juntos assistirmos à novela das oito que sempre começava às nove! Naquelas horas, fazíamos um balanço das personagens e de nossas vidas. Tempo bom. Tempo que passou.

Mas, afinal, por que as novelas nos seduzem tanto? Existem estudos sérios que tentam explicar esse fenômeno, que é mundial, mas que aqui no Brasil, por muitos anos, chegou a se definir padrões de comportamento cultural em todos os níveis: o que comíamos, o que ouvíamos, o que discutíamos, o que desejávamos para nossas próprias vidas! É que as novelas atendem a uma necessidade humana básica: precisamos viver outras vidas! Não que as nossas sejam de todo ruins, mas que bom poder imaginarmos que existem outras melhores que as nossas: torna-se e, muitas vezes, um modelo, um motivo para continuar lutando contra as vicissitudes. Diferentemente das atuais redes sociais, nas quais pessoas reais publicam suas vidas, quase sempre com muitos filtros e inverdades.

Nas novelas, eu sei que ali estão personagens e, por isso mesmo, eu posso ser qualquer um deles.

Nas novelas, eu sei que no final o bem vai vencer, que o mal será punido pela justiça (divina ou humana), que a mocinha que sofreu a novela inteira vai encontrar seu amor perfeito e que eles viverão felizes para sempre e, eis então, algo mágico e necessário: as novelas têm final! Na vida real, mesmo depois do “felizes para sempre”, vai haver o dia seguinte onde tudo isso pode, inclusive, desfazer-se. Nós precisamos acreditar que a nossa história de vida vai ter um final e que ele será feliz.

Nessa altura do texto, você,  leitor, deve estar pensando: que viagem é essa na qual Adão embarcou? Ele quer viver de ilusões? A vida não é uma novela. Eu sei que não, mas as novelas me ensinaram a sonhar e nós sabemos que tudo que hoje existe um dia foi sonho ou como dizia outro grande criador de ilusões, o Walt Disney, “se você é capaz de sonhar, você pode realizar”.  A vida precisa de sonhos! Eu preciso acreditar que o futuro pode ser melhor, porque isso realmente pode acontecer. Steve Jobs disse, certa vez, que cada sonho que deixamos para trás é um pedaço de nosso futuro que está deixando de existir. Eu acredito nisso e cheguei até aqui assim, sonhando. Se já consegui tudo que eu queria? Claro que não, mas a minha vida ainda tem muitos capítulos para ir ao ar e cada vez mais eu persigo sonhos grandes, afinal, como diz João Paulo Leman “sonhar grande ou pequeno dá o mesmo trabalho”.

Sei que, na atualidade, as novelas estão perdendo espaço para outras mídias e eu mesmo já não as vejo com tanta regularidade ou entusiasmo, mas a sua essência não se perdeu de mim: continuo sendo um sonhador. Só que meus sonhos grandes agora não se referem mais às conquistas materiais, mesmo que eu goste de me sentir seguro ao lado de coisas belas e confortáveis; meu sonho maior hoje é fazer cada vez mais pelos outros, pois eu já descobri que a felicidade verdadeira só vem para nós se nos visualizarmos como um espelho para nossas bênçãos, irradiando para todos o que temos de melhor.

Que a vida é curta, disso sabemos, afinal, quem pode ter certeza de quantos capítulos a nossa ainda terá por aqui? Ou quantos personagens vão aparecer e desaparecer dela? Mas isso não importa e nem deve nos ocupar a mente diante da trama maior que é o próprio ato de existir. O que eu quero é que as cenas dos próximos capítulos me permitam ver a mim mesmo como uma pessoa melhor do que sou hoje, alguém que soube sonhar e realizar e que multiplicou suas alegrias até o final dessa existência, até o meu “felizes para sempre”.  E que venha a próxima novela…

 

Adão Albuquerque Professor, Performer e Palestrante

professoradao1@gmail.com @adaoalbuquerque

 

 

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